Uma história de transição…

10 em Matemática na escola, 2 em Cálculo na universidade… o que aconteceu?

Recentemente vi um post sobre o título acima no mural de um ex-aluno. A figura segue em anexo

Mil perdões, mas não encontrei o autor da tirinha. (mesmo com a assinatura do mesmo(a) ali embaixo da figura. Obrigado mesmo assim.

Essa imagem realmente me fez pensar bastante no motivo pelo qual isso acontece. Vamos pela base: a escola!

Digamos que você estude em uma escola (independente de ser privada ou pública ou qualquer outra coisa que seja) em que você vai bem em matemática. A pergunta é: o que representa o seu sucesso em matemática? A resposta é simples: as notas, é claro. Segunda pergunta: o que te faz tirar notas boas? Essa é uma bela pergunta… Se você parar para prestar atenção nela, digamos que essa resposta seja uma função de várias variáveis. Em termos não matemáticos, essa resposta não depende somente de um fator que seria, a priori, seu esforço.

Vamos aos fatos: 1 – espera-se que o professor ENSINE (marquei em maiúsculo porque vou querer voltar aqui depois). 2 – espera-se que você ESTUDE E EXERCITE o que o professor ensinou. 3 – espera-se que hajam DÚVIDAS. 4 – espera-se que os passos 2 e 3 sejam REPETIDOS até não houver mais dúvidas. 5 – espera-se que você ENTENDA efetivamente o conteúdo. 6 – espera-se que a AVALIAÇÃO cobre o entendimento e 7 – espera-se que o professor AVALIE seu entendimento propriamente e que dê, por fim a nota certa. Tudo isso na escola.

Para continuar daqui pra frente, não vou entrar no fato de que sempre existe muito mais coisas para estudar por que existem não sei quantas matérias no ensino médio e vestibular e etc…

Agora vamos aos maiúsculos.

– que o professor ENSINE: diga-se de passagem que ensinar matemática não é somente apresentar fórmulas e métodos. O professor de matemática, assim como física e química (que também são da área de exatas) deve fazer a leitura dos conceitos de uma maneira que a turma compreenda-o antes da demonstração de como usar o conceito (o que é, para que serve e quais são as bases para a resolução de uma equação de primeiro grau, por exemplo, antes de sair resolvendo no passa pra lá multiplicando e passa pra cá dividindo). Se o seu professor te mostrou como resolve e não te ensinou porque se faz cada coisa e algumas, mesmo que poucas, das possíveis aplicações de um conceito, esse primeiro fator ficou de lado. (-1/7)

– que você ESTUDE, EXERCITE e tenha DÚVIDAS (pontos 2, 3 e 4): SIM! eu como professor, quero que você tenha dúvidas, mas também quero que você tenha dúvidas depois de estudar e exercitar. Isso é um ciclo. É para ser assim. Vamos assumir que o primeiro ponto foi feito com glória por parte do professor. Então você vai estudar o conceito, revisá-lo e então começar a exercitar. É natural que para alguns exercícios, alguns detalhes mais profundos deste conceito ou detalhes de conceitos relacionados a ele sejam necessários, afinal de conta a matemática como um todo é uma construção de conceitos um sobre os outros. Na falta da interelação de conceitos ou de um detalhe do conceito em estudo a sua dúvida aparece. O que você deve fazer?

Não, calma… Você deve ir atrás de ajuda. Onde? Com o seu professor, com um tutor (assistente, monitor, sei lá) ou até mesmo livros, internet (métodos self-service). Assim, você pode sanar sua dúvida e continuar. Se aparecerem outras dúvidas, repita o processo até que você finalize seus estudos/não tenha mais dúvidas. Agora……… se você pulou essa parte e mesmo assim se deu bem na escola, tenho péssimas notícias. (-4/7)

– que você ENTENDA efetivamente o conteúdo: esse é brabo. Ainda mais para quem não tem vocação ou facilidade (ou tenha bloqueio, trauma, preguiça ou como queiram chamar) com matemática, física, química e exatas em geral. O entendimento de um conceito necessita obrigatóriamente do entendimento dos conceitos relacionados a ele. Por exemplo: não adianta você tentar resolver uma equação trigonométrica sem entender o que é um seno/cosseno/tangente (e outras) no círculo trigonométrico. MAS, uma vez que você entende como o círculo trigonométrico é construido e como funciona (e suas funções, é claro), você tem argumentos para cogitar possíveis resultados da equação trigonométrica. Você compreendeu o que é uma equação trigonométrica e tem o entedimento de como se resolve a mesma. Claro, que também é interessante, como falei, que você entenda para que serve e onde se aplica, mas na matemática, às vezes, algumas coisas são mais abstratas, com pouca aplicação, e tem de ser tratadas dessa forma. Ponto. Com tudo, se você não efetivamente entendeu a matéria, até terá salvação se o seu professor cobrar somente cálculos repetitivos, mas estará fadado a um possível fracasso na faculdade. (-5/7)

– espera-se que a AVALIAÇÃO cobre o entendimento: mais uma vez voltamos ao professor. Este deve elaborar uma avaliação sobre o entendimento do conteúdo e do conceito. E se isso envolver os conceitos previos necessários, ele não está fazendo nada errado. Ainda, para que o entendimento seja cobrado, naturalmente questões ou tarefas que exigem desenvolvimento e análise devem aparecer. Isso normalmente deixa as avaliações com cara de difícil, trabalhosa e, por mais que não seja, fora de contexto ou acima do nível. Entretanto, é a maneira correta de fazer uma avaliação. Naturalmente que o nível da avaliação deva estar alinhado com o programa previsto pela escola/conselho/regulamentação/estado/país/etc. Mas o ensino do professor também deve estar. Logo, se o professor não segue o programa a risca e com a seriedade necessária em suas explicações, e faz o mesmo nas avaliações, você perde duas vezes, por mais que pareça mais fácil. Essa é uma tarefa árdua para os professores, não há dúvida. É sempre muito mais confortável elaborar uma prova em cima daquilo que você passou para alunos exercitarem, mas nem sempre é a melhor solução. Mas se você atuou como um professor que não deixou o ponto 1 passar em branco, e se cobrou exercícios desafiadores que exigem do aluno estudo, com certeza será fácil elaborar uma avaliação em nível. Caso contrário, o professor passa por bonzinho e o aluno faz de conta que aprende sem saber e ainda acha que aprente (-6/7)

– finalmente, espera-se que o professor AVALIE seu conhecimento propriamente: isso é outra bomba, para o professor, é claro. Natural que dependendo da avaliação o processo de “dar nota” é diferente. Mas, de qualquer forma, o processo deve se basear na qualidade dos pontos 1 e 6 desse texto: se o professor explicou para que o aluno entenda bem ou se o professor só ensinou “como faz” e se o professor elaborou uma avaliação que o aluno utilize seus conhecimentos de verdade ou que só “faça cálculos programados”. Supondo que o professor fez tudo direitinho, eu diria que “dar a nota” não será complicado, pois ele tem muito bem baseado o que deve ser cobrado na avaliação. Por outro lado, se o professor cobrar bem e der qualquer nota boa ou der nota boa por pena, ou por participação, ou por considerar o aluno esforçado, ou pelo fato da escola mandar, ou pelo fato do coordenador exigir, ou pelo fato do estado não deixar ninguém “rodar”, novamente o professor passa por bonzinho e o aluno não aprende, e ainda vai levar bomba na faculdade (se não acontecer o mesmo lá). (-7/7).

Assim, dá pra ver que a situação gerada é um resultado de vários fatores, que eu nomearia por ordem de importância no processo: 1 – aluno (SIM, você pode cobrar a mudança), 2 – professor (SIM, você pode exigir a mudança), 3 – escola ou faculdade (vocês também podem ser o agente da mudança), 4 – sistema de ensino (município, estado, país).

Pense bem nisso, você aluno. Pense bem nisso, você professor, Pense bem nisso, você escola/faculdade/universidade. A área de exatas requer entendimento para que a partir daí sejam formados seres pensantes, analistas e elaboradores de soluções para os problemas que permeiam estes profissionais. Fazer o processo na barriga, por qualquer uma das partes, vai levar o aluno/estudante ao fracasso em algum momento. E o fracasso tem menores problemas e mais fáceis soluções em nível escolar/acadêmico. Se o fracasso for em nível profissional, maiores e mais abrangentes problemas podem ser gerados.

Fica dito.

Grandes abraços.

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